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Festival Arcos de Valdevez

08 Set 2000 a 10 Set 2000

Arcos de Valdevez

Cranes, Death In Vegas

Quartos de hotel destruídos. Nudez integral. Um rocker norte-americano a começar aí uma dependência química. Einstuerzende Neubauten tocam três horas. Recordamos um festival mítico... de que poucos se lembram.

A organização era de várias entidades da região, o nome não poderia ser mais espartano, sem qualquer menção a patrocinador: Festival de Arcos de Valdevez, mais um evento a juntar-se ao verão minhoto do ano 2000 (que contava já com Vilar de Mouros, Paredes de Coura e Ilha do Ermal). Anuncia-se investimento superior "90 mil contos" (450 mil euros), um cartaz composto por nomes firmados como The Fall, Primal Scream, Einstuerzende Neubauten e Death In Vegas, e um contingente nacional bem numeroso, dos Wraygunn aos Atomic Bees, de Rita Pereira (mais tarde Rita Redshoes). A imprensa local dava conta das altas expectativas, prevendo enchente, mas a afluência de público acabou por ser muito menor do que esperado (diz-se, inclusive, que algumas contas terão ficado por saldar...). Quem lá esteve trouxe, porém, boas histórias para contar. Gregg Foreman, vocalista dos rockers norte-americanos Delta 72, garante que nunca - como em Valdevez - se deparou com tanta oferenda tóxica na sua vida (não que os banhos de rio ou as jam sessions improvisadas até às tantas sejam pormenores de somenos) e chegou a confessar, anos depois, que o seu vício de cocaína começou ali. Os Primal Scream cancelaram, à última hora, o seu concerto, alegando ausência de Bobby Gillespie - Mani e companhia alegavam que o vocalista não conseguira apanhar voo para Portugal; alguma imprensa garantia que a voz de "Rocks" estaria em território nacional mas "impróprio para consumo". Os Einstuerzende Neubauten disponibilizam-se para tocar "a dobrar" (e há uma bootleg de quase três horas que o confirma), eventualmente propulsionados pelo "milagroso" pó branco que rodava livre no seu camarim. Também galvanizados pelo espírito particular do festival, os The Fall causaram danos na pousada familiar onde ficaram instalados, tendo alegadamente jogado janela fora toda a roupa de cama e, incansáveis, pedido uísques às 8 da manhã. Os franceses LTNO (gente do electro-rock) também deram que falar, com episódios de nudez integral e farra noite dentro com groupies do Porto. Inebriado pela loucura generalizada, Paulo Furtado - homem forte dos Wraygunn - mostrou dotes de sapateado sobre uma mesa nos bastidores e foi depois avistado, desorientado, numa estrada solitária durante a madrugada. Dando prejuízo, o festival de Arcos de Valdevez não voltou, compreensivelmente, a realizar-se. Um grupo no Facebook chegou, entretanto, a reclamar o seu regresso. Percebe-se porquê.

Texto: Luís Guerra Excerto do artigo "As Melhores Histórias dos Festivais em Portugal", incluído na BLITZ de agosto, nas bancas

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